domingo, 20 de março de 2022

Conto de assombração "A coisa"

 A Coisa...

Por Ruth Rocha

A casa do avô de Alvinho era uma dessas casas antigas, grandes, que têm dois andares e mais um velho porão, onde a família guarda tudo que ninguém sabe bem se quer ou não quer.

Um dia Alvinho resolveu ir lá embaixo procurar uns patins que ele não sabia onde é que estavam.

Pegou uma lanterna, que as lâmpadas do porão estavam queimadas, e foi descendo as escadas com cuidado.

No que foi, voltou aos berros:

– Fantasma! Uma coisa horrível! Um monstro de cabelo vermelho e uma luz medonha saindo da barriga.

Ninguém acreditou, está claro! Onde é que já se viu monstro com luz saindo da barriga? Nem em filme de guerra nas estrelas!

– A Coisa! – ele gritava. – A Coisa! É pavorosa! Muito alta, com os olhos brilhantes, como se fossem de vidro! E na cabeça uns tufos espetados pra todos os lados!

Nessa altura a família começou a acreditar. E tio Gumercindo resolveu investigar. E voltou, como os outros, correndo e gritando:

–  A Coisa! É uma Coisa! Com uma cabeça muito grande, um fogo na boca. É muito horrorosa! O Alvinho já estava roendo as unhas de tanto medo.

Dona Julinha, a avó do Alvinho, era a única que não estava impressionada.

–  Deixa de bobagem, Alvinho. Pra que esse medo? Fantasmas não existem!

–  Mas meu medo existe! – disse o Alvinho.

– Tá bem, tá bem, eu vou – disse Dona Julinha – eu vou ver o que é que há...

E Dona Julinha foi tirar a limpo o que estava acontecendo. Foi descendo as escadas devagar, abrindo as janelas que encontrava.

A família veio toda atrás, assustada, morrendo de medo do monstro, fantasma, alma penada, fosse lá o que fosse. Até que chegaram lá embaixo e Dona Julinha abriu a última janela.

Então todos começaram a rir, muito envergonhados. A Coisa era...um espelho!

Dona Julinha tinha levado o espelho para baixo e tinha coberto com um lençol (Dona Julinha não tinha medo de fantasma, mas tinha medo de raios...)

Um dia o lençol desprendeu e caiu e se transformou na Coisa...

Cada um que descia as escadas, no escuro, via uma coisa diferente no espelho. E todos eles pensavam que tinham visto... a Coisa.

A Coisa eram eles mesmos!

Não ria, não! Você já reparou como um espelho no escuro é esquisito?

Disponível em: https://www.ewfa.com.br/expo2020/pdf/7ano/701.pdf 

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